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Doutrina

A análise da hermenêutica jurídica sob a perspectiva metodológica da história cultural: a nova percepção de mundo, na visão de roger chartier, e seus obstáculos epistemológicos


Autores:
BUSSINGUER, Elda Coelho de Azevedo
ANDRADE, Thaís Machado de

RESUMO

O artigo proposto apresenta como objetivo geral trabalhar a História Cultural em uma perspectiva metodológica, assim como, sua ruptura com os padrões objetivos e quantitativos das ciências naturais positivistas, apresentando, para tanto, os obstáculos epistemológicos formais e materiais à essa nova abordagem metodológica,quais sejam, os Materiais: A individualização dos saberes e a problematização das tecnologias digitais. E os formais: O método das ciências naturais positivistas e a questão da memória como fonte histórica; assim como, o Estruturalismo como método epistemológico.

PALAVRAS-CHAVE: História Cultural - Positivismo - Estruturalismo - Obstáculos Epistemológicos.

SUMÁRIO: 2 A ESCOLA DOS ANNALES E A RUPTURA COM A ABORDAGEM OBJETIVA DAS CIENCIAS NATURAIS POSTIVISTAS. 3 A HISTÓRIA CULTURAL DE ROGER CHARTIER - DENTRE AS PRÁTICAS E REPRESENTAÇÕES.4 A HISTÓRIA CULTURAL COMO ABORDAGEM METODOLÓGICA E SEUS OBSTÁCULOS EPISTEMOLÓGICOS MATERIAIS E FORMAIS. CONSIDERAÇÕES FINAIS. REFERÊNCIAS.

INTRODUÇÃO

O séc. XX foi marcado por grandes mudanças (mundiais) sociais, econômicas e políticas. Nesse contexto três grandes guerras mobilizaram tais mudanças, a Primeira Guerra Mundial (1914 a 1918), movida pelos problemas econômicos vivenciados pelas nações da Europa e, consequentemente, também políticos. A Segunda Guerra (1939 a 1945) pela continuidade das insatisfações acerca do término da primeira e, então, a Guerra Fria entre a União Soviética (socialismo) e Estados Unidos (capitalismo) que perdurou até o fim daquela, em 1991.Dessa forma, as mudançassócio-econômicas ocorridas nesse período,que reestruturaram as formas de percepção de mundo,não foram uma característica isolada dos Estados em si, dado que uma nova forma de se pensar esse momento da história também se manifestou no campo das produções científicasde forma a entender os fatos sociais e sua essência, combatendo a visão individualista, meramente fática, documental e necessitada de dados comprobatórios, ou seja, as ciências naturais positivistas vigentes na época.

O positivismo como escola filosófica teve seu auge na Europa na segunda metade do séc. XIX e começo do XX, entendendo o conhecimento científico como verdadeiro e válido apenas quando produzido por métodos distanciados do que não pudesse ser comprovado cientificamente. A partir disso, a necessidade de ir a fundo aos novos paradigmas instaurados, novos métodos(ou abordagens metodológicas) surgiram para se entender melhor os acontecimentos sociais e suas razões, entre eles, o de repensar a história além dos registros documentais:a História Cultural.

Em 1966, o filósofo francês Jacques Derrida, numa Conferência realizada na Johns Hopkins University , "La structure, lesign et lejeudanslediscoursdesscienceshumaines", teceu críticas a uma forma de abordagem científica conhecida por Estruturalismo, que procura trabalhar com a construção e reprodução de significados com base em uma determinada cultura social e, nesse sentido, com redes de sistemas de significação, tendo como seu grande representante o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss. Dessa forma, com a discussão acerca de uma nova abordagem que privilegiasse a desconstrução desse modelo estrutural, surge a descentralização do sujeito, a partir de uma forma metodológica dedicada à abordagem, agora, qualitativa, despreocupada com a forma, com os moldes pré-determinantes e com a questão quantitativa no campo da produção científica.

Essa nova visão em torno da ciência trouxe consigo uma crise que afetou, por exemplo, o campo da História, cientificamente e também como disciplina, assim como, os historiadores que foram obrigados a refletir sobre sua função para com a sociedade.

2 A ESCOLA DOS ANNALES E A RUPTURA COM A ABORDAGEM OBJETIVA DAS CIENCIAS NATURAIS POSTIVISTAS

Iniciou-se na França, em 1929, com a Revista Annales d'histoireéconomique et sociale, um novo pensamento historiográfico fundado pelos historiadores modernistasLucienFebvre(1878 - 1956) eMarc Bloch (1886 - 1994). A Escola dosAnnales procurou ser mais do que uma revista e sim um movimento de inclusão de métodos das ciências sociais às pesquisas históricas, com o objetivo de unir os campos científicos e ir além do método individualista, quantificado e comprobatório das ciências naturais positivistas, adotando uma percepção histórica pluralista acerca dos fatos, ou seja, um estudohistórico também a partir da Psicologia, da Geografia, da Sociologia, da Economia etc, com o objetivo, portanto, de uma abordagem interdisciplinar da história.

A Escola dos Annales foi dividida em quatro fases,destacando-se, na última, o historiadorfrancês Roger Chartier, nascido em 09 de dezembro de 1945, professor da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais e do Collège de France (Paris), também da Universidade da Pensilvânia (EUA). A escola trabalhou com duasabordagens da Históriaque ficaram conhecidas comoHistória das Mentalidades e a de "Longo Tempo", onde "sob a designação de história das mentalidades ou de psicologia histórica delimitava-se um novo campo, distinto tanto da antiga história intelectual literária como da hegemônica história econômica e social". (CHARTIER, 1990 p. 15). Essa nova perspectiva da história, sistematizadamente, trabalhou com os costumes de um povo em determinado momento a partir dos hábitos desenvolvidos e transformados (lentamente) ao longo dos tempos.

3 A HISTÓRIA CULTURAL DE ROGER CHARTIER - DENTRE AS PRÁTICAS E REPRESENTAÇÕES

Surge no final dos anos 1980 com o historiador britânico Peter Burke a partir da concepção dos Annales a ideia de uma Nova História e essas ideias culmiram numa obra chamada O que é história cultural?, publicada em 2004. Conforme explica O Professor JohnniLanger, Doutor em História pela UFPR e Pós-Doutor em História Medieval pela USP:

No final dos anos 1980, o historiador britânico Peter Burke realizou uma conferência no Brasil, onde procurava determinar os mais recentes paradigmas da historiografia, especialmente os advindos da França e relacionados aos Annales. Sob o epíteto de "a nova história", caracterizou esta tendência como algo situado entre a história total e a estrutural. Esse movimento seria basicamente ocasionado por uma crise geral dos paradigmas, especialmente concentrados em algumas críticas: a política pensada além das instituições e a história pensada além da política; uma preocupação maior com as estruturas do que com a narrativa dos acontecimentos; deslocamento do interesse pela vida e obra dos grandes homens e grandes datas para as pessoas e acontecimentos comuns; a necessidade de se ir além dos documentos escritos e registros oficiais; a história não seria objetiva, mas sujeita a referenciais sociais e culturais de um período. (LANGER, 2012, s.p.).

E ainda explica que:

Um pouco antes da publicação do livro de Burke, em 1989, a historiadora norte-americana Lynn Hunt realizou uma coletânea utilizando o termo que definiria e popularizaria esta tendência historiográfica em ascensão: a nova história cultural. Segundo Hunt, além da terceira e quarta geração dos Annales, o interesse pelas práticas simbólicas foi também enfatizado por autores marxistas, antropólogos, críticos literários (narrativa e linguagem) e filósofos (análise do discurso), todos apontando que as relações econômicas e sociais são campos de produções culturais. Também os documentos não seriam simples reflexos transparentes do passado, mas ações simbólicas com significados diferentes conforme os autores e suas estratégias. Era o início da supremacia dos estudos culturais na historiografia.(LANGER, 2012, s.p.).

Nesse pensar, no âmbito francês, dois historiadores vão a partir da História Cultural de Peter Burke trabalhar com um estudo refutador da história das mentalidades, considerando seu método como fluido, ambíguo e pouco preciso, sem articulações entre o psicológico e o social (LANGER, 2012), são eles, Ronaldo Vainfas e Roger Chartier, objeto desse estudo, que, dentre outras, publicou a obra "A história cultural: entre práticas e representações" em 1990:

O presente livro, composto por oito ensaios publicados entre 1982 e 1986, constitui-se como resposta à insatisfação sentida frente à história cultural francesa dos anos 60 e 70, entendida na sua dupla vertente da história das mentalidades e história serial, quantitativa. (CHARTIER, 1990, p.13).

Aponta, nesse sentir, que "numa palavra, poderá dizer-se que a história era então institucionalmente dominante e que se encontrava intelectualmente ameaçada" (CHARTIER, 1990, p.13) e, a partir desse fato, explica que "é precisamente essa posição, baseada na primazia do estudo das conjunturas econômicas e demográficas ou das estruturas sociais, que as ciências sociais mais recentemente institucionalizadas tentam abalar nos anos 60?. (1990, p. 14). E, portanto, sua obra: "pretende ilustrar (discretamente, atendendo a que não é esse o seu objecto) uma outra maneira de pensar as evoluções e oposições intelectuais". (1990, p.16).

Para tanto, Roger Chartier vai trabalhar sobre três pilares, quais sejam, representação, prática eapropriação, já que o mundo do texto seria diferente daquele entendido (ou apoderado) por um leitor, quando do sentido por este construído conforme critérios temporais de identidade como sua posição social, o poder simbólico de um determinado costume em um grupo ou classe etc. Podemos exemplificar a partir da condição histórica da escravidão, onde a prática de se ter muitos escravos em uma determinada época teve como representação a do poderio econômico e status social, representação essa que, como fato social,pode ser demonstiva de que, "deturpada, a representação transforma-se em máquina de fabrico de respeito e de submissão, num instrumento que produz constrangimento interiorizado, que é necessário onde quer que falte o possível recurso a uma violência imediata". (1990, p.22). E, por fim, esclarece que:

A relação de representação - entendida, deste modo, como relacionamento de uma imagem presente e de um objeto ausente, valendo aquela por este, por lhe estar conforme - modela toda a teoria do signo que comanda o pensamento clássico e encontra a sua elaboração mais complexa com os lógicos de Port-Royal". (1990, p. 21).

Sobre práticas e representações temos abaixo um grande exemplo de como as práticas sociais dão corpo aos costumes e, assim, constroem a história de um povo, de um fato ou de um local e, a partir dessas práticas,também os constumes como representações sociais conforme cadaépoca:

No século XVI, o mendigo forasteiro será recebido com extrema desconfiança. Ele passa a ser visto de maneira cada vez mais excludente. Um novo capítulo na História Econômica e na História do Trabalho contribui para isso. Viver à margem do trabalho passará logo a se contrapor a este mundo que Marx examinou sobre o prisma da "acumulação primitiva".

As "representações" do mendigo, em geral, tenderão a estar inseridas no âmbito da marginalidade. Pergunta-se que doenças estará prestes a transmitir, se não será um bandido, porque razões não permaneceu no seu lugar de origem, porque não tem uma ocupação qualquer. Assim mesmo, quando um mendigo forasteiro aparecia em uma cidade, no século XVI ele ainda era tratado e alimentado antes de ser expulso. Já noséculo XVII, ele teria a sua cabeça raspada, como um sinal representativo de exclusão,passando algumas décadas depois a ser açoitado, e já no fim desse século a mendicidade implicaria na condenação.

O mendigo, que na Idade Média beneficiara-se de uma representação que o redefinia "instrumento necessário para a salvação do rico", era agora penalizado por se mostrar como uma ameaça, aos poderes dominantes, contra o sistema de trabalho assalariado do Capitalismo, que não podia desprezar braços humanos de custo barato para pôr em movimento suas máquinas e teares, e nem permitir que se difundissem exemplos e modelos inspiradores de vadiagem. O mendigo passava a ser representado então como um desocupado, um estorvo que ameaçava a sociedade e não mais como um ser merecedor de caridade. Ele passa a ser então assimilado aos marginais, aos criminosos - sua representação mais comum é a do vagabundo. Algumas canções e obras literárias irão representá-lo com alguma frequência dessa nova maneira, os discursos jurídicos e policiais farão isto "sempre". As novas tecnologias de poder passariam a visar a sua reeducação, e quando isto não fosse possível, a sua punição exemplar. Novas práticas irão substituir as antigas, consolidando novos costumes. (BARROS, 2011, pp. 49-50).

Nessa pespectiva, Chartier estudará as práticas culturais fundamentando que:

As percepções do social não são de forma alguma discursos neutros: produzem estratégias e práticas (sociais, escolares, políticas) que tendem a impor uma autoridade à custa de outros, por elas menosprezados, a legitimar um projeto reformador ou justificar, para os próprios indivíduos, as suas escolhas e condutas. (1990, p.17).

E, sob o aspecto da apropriação, manifesta-se o autor que "tal como a entendemos, tem por objetivo uma história social das interpretações, remetidas para as suas determinações fundamentais (que são sociais, institucionais, culturais) e inscritas nas práticas específicas que as produzem" (1990, p. 26).

Portanto, na vertente da apropriação, uma vez publicado o discurso, o entendimento e a apropriação do que se tenha percebido ficará a cargo de cada leitor, de forma intencional. Assim sendo, entendendo que os discursos não são neutros e, na verdade, produzem estratégias e práticas que vão refletir diretamente em determinação de condutas sociais:

Uma vez escrito e saído das prensas, o livro, seja ele qual for, está suscetível a uma multiplicidade de usos. Ele é feito para ser lido, claro, mas as modalidades do ler são, elas próprias, múltiplas, diferentes e segundo as épocas, os lugares, os ambientes."(CHARTIER, 2003, p. 173).

Enfim, na concepção de Roger Chartier, a sociedadeé moldada a agir e pensar, por meio das relações sociais a que se vincula, conforme cada situação e estrutura de poder, estado, família, religião, etc. Logo, há uma forma simbólica de categorias e processos que vão construir o mundo como representação.

4A HISTÓRIA CULTURAL COMO ABORDAGEM METODOLÓGICA E SEUS OBSTÁCULOS EPISTEMOLÓGICOSMATERIAIS E FORMAIS

A história cultural como uma forma de abordagem metodológica possibilita uma nova abordagem acerca dos fatos já ocorridos, a partir de outras fontes que não sejam apenas a dos registros históricos, dando ao pesquisador um aparato múltiplo de percepções humanas acerca de significados e significantes, para a construção e análise de dados. Assim, "trata-se, antes de tudo, de pensar a cultura como um conjunto de significados partilhados e construídos pelos homens para explicar o mundo." (PESAVENTO, 2003, p.15).

Chartier explica essa nova abordagem metodológica acerca da historiografia, ou seja, a nova perspectiva de uma História Cultural:

A abordagem estatística que, no passado, pareceu dominar a história cultural francesa e que visava, antes de tudo, medir a desigual divisão social de objetos, de discursos, de atos colocados em séries não poderia, portanto, ser suficiente. Supondocorrespondências demasiado simples entre níveis sociais e horizontes culturais, apreendendo os pensamentos e as condutas em suas expressões mais repetitivas e mais redutoras, semelhante abordagem perde o essencial, que é a maneira contrastada como os grupos e os indivíduos fazem uso dos motivos ou das formas que compartilham com outros. (CHARTIER, 2003, p.13).

Para a utilização da história cultural como método, dispõe-se de três técnicas, a saber, (i) a observação; (ii) a história oral, (iii) e também a análise de documentos, isto porque "contar títulos e edições, no entanto, não basta: é preciso também detectar os gestos que eles recomendam ou estigmatizam" (CHARTIER, 2003, p.172).

Na primeira técnica o pesquisador vai a campo observar os acontecimentos sobre os quais serão construídos os dados de sua pesquisa. Em se tratando da história oral, estase realiza pela transcrição de entrevistas realizadas permitindo ao pesquisador maior proximidade e contato com o objeto a ser estudado. Pode se dar por três modalidades, História Oral de Vida; História Oral Temática e Tradição Oral. Logo, a História Oral é uma metodologia de pesquisa qualitativa que envolve a "apreensão de narrativas usando meios eletrônicos e destina-se a recolha de testemunhos, promover análises de processos sociais do presente e facilitar o conhecimento do meio imediato." (MEIHY, 2002, p.13).

Todavia, essa nova abordagem metodológica, assim como outras, possui alguns obstáculos epistemológicos formais e materiais à sua aplicação, que passaremos a discutir, quais sejam, os Materiais: A individualização dos saberes e a problematização das tecnologias digitais. E os formais: (i) O método das ciências naturais positivistas e a questão da memória como fonte histórica; (ii) O estruturalismo como método epistemológico.

Para se entender a individualização dos saberes e a problematização das tecnologias digitais,então, como obstáculos epistemológicos materiais à História Cultural é preciso, antes de tudo, entender a natureza própria dessa metodologia. A História Cultural trabalha com a perspectiva dialética, ou seja, com a tensão que se apresenta entre as realidades sociais e as representações e apropriações a que se vinculam, já que não se poderia traduzir os fatos apenas com base nos relatos textuais, uma vez que estes representam as práticas sociais determinadas num dado espaço temporal. Portanto, o momento histórico influencia na forma como se entende, interpreta e se reproduz um fato, posto que as suas práticas sociais são mutáveis e convencionais conforme o tempo, que também é variável, como descreve Chartier:

Essa dialética da coerção e da invenção implica o cruzamento entre uma história dasconvenções que normatizam a hierarquia dos gêneros, que definem as modalidades e os registros do discurso, e uma outra história, a dos esquemas de percepção e dejulgamento próprios a cada comunidade de leitores. (CHATIER e CAVALLO, 1998,p. 38).

Assim sendo, contrapondo a história tradicional, importa para essa análise historiográfica, além da tensionalidade entra as práticas e as representações, a relação de interdisciplinaridadeentre as Ciências como a Política, a Economia, a Sociologia, a Psicologia e também sua aplicação pelos diversos campos do conhecimento como pela Literatura, pela Pedagogia, pelo Direito. Ainterdisciplinaridade se apresenta, por exemplo, na leitura de forma que esta sobre um texto é sempre uma produção de significados (CHARTIER,1999) e, dessa forma, Chartier explica a contribuição da interdisciplinaridade para a História Cultural emuma entrevista publicada concedida ao Doutor em Educação pela Universidade do Minho, em Portugal, Justino Magalhães

É essa a razão de ser do cruzamento entre disciplinas que durante muito tempo se ignoraram. No meu próprio campo de estudos, trata-se de disciplinas ligadas ao estudo dos textos (filologia, crítica literária, análise do discurso), ao estudo dos objetos escritos, manuscritos ou impressos (história da escrita, bibliografia material, história do livro e da edição) ou ao estudo das práticas culturais. Em meu entender, a história cultural deve colocar no centro das suas interrogações os processos múltiplos que permitem a construção dos sentidos para os textos (ou para as imagens ou práticas) por parte dos diferentes agentes sociais envolvidos na produção, transmissão ou apropriação dos bens e das formas simbólicas (MAGALHAES, 2014, p. 420).

Como forma complementar à difusão dos saberes, tem-se a problemática atual das tecnologias digitais que, aos olhos da Ciência seriam, de certa forma, prejudiciais à leitura e à produção do conhecimento de forma material por conta da fragmentação dos conteúdos quando da leitura nas mídias de internet, o que, na percepção de Chartier pode ser um fator positivo no momento em que permite a divulgação intelectual de forma mais acessível e em grande escala.

Portanto, a interdisciplinaridade para a nova historicidade, englobando a diversidade e os vários campos do saber,é indispensável para se entender a completude do objeto imanente ao sujeito, inclusive por meio das tecnologias digitais que de forma eficaz fomentam a amplitude de circulação das obras e atuam como um meio de difusão universal do conhecimento.

Acerca dos obstáculos epistemológicos formais impostos à aplicação metódica da história cultural, aponta-se o método das ciências naturais positivistas e a questão da memória como fonte histórica.

A humanidade sempre esteve a procura de respostas que satisfizessem seu anseio existencial, iniciando com a filosofia e a determinação de uma visão racional para os acontecimentos da vida, diferentemente das explicações míticas, até então, utilizadas. A partir da ruptura entre mito e razão, esta última trouxe como pressuposto a necessidade de ser aplicada conforme métodos que fossem capazes de sustentá-la e de afirmar sua validade.

A determinação inicial de um método que fosse eficaz para a comprovação de uma verdade como fato deu-se pelas ciências naturais positivistas, no século XIX, através do filósofo francêsAuguste Comte, muito embora já tenha sido traçado pelo também filósofo (e matemático) francês René Descartesque, influenciado pelas ideias de Aristórteles, no séc.XVII, foi considerado o pai do racionalismo, na tentativa de conciliar a razão com as prescrições católicas.

Para as ciências naturais o homem é o detentor absoluto do conhecimento e, por isso, fora dela, deve estudar a realidade que está posta sem contar com aspirações míticas, religiosas ou não comprováveis, como também o sensocomum. São características do método das ciências naturais positivistas: o empirismo, a objetividade, a experimentação e a validade (devendo-se afastar qualquer elemento que não possa ser de forma quantitativa, demonstrado). Logo,"a ciência lida com fatos objetivos, isto é, com os fenômenos, depois que foram purificados de todos os elementos subjetivos, de todas as qualidades sensíveis, de todas as opiniões e todos os sentimentos, de todos os dados afetivos e valorativos". (CHAUÍ, 2002, p. 271).

Na segunda metade do século XIX desenvolvem-se as chamadas ciências humanas que, diferentemente das ciências naturais positivistas, tem como objeto o homem e suas relações experimentadas em sociedade. Mas,conforme aduz Antônio Carlos Gil (1999, p. 22), na visão de alguns autores, "as ciências humanas lidam com entidades que não são passíveis de quantificação, o que torna difícil a comunicação dos resultados obtidos em suas investigações". E, assim, a partir do método científico quantitativo, objetivo e, somente assim, considerado válido,Marilena Chauí indaga:

(...)A ciência lida com fatos observáveis, isto é, com seres e acontecimentos que, nas condições especiais de laboratório, são objetos de experimentação. Como observar-experimentar, por exemplo, a consciência humana individual, que seria objeto da psicologia? Ou uma sociedade, objeto da sociologia? Ou uma época passada, objeto da história?

A ciência busca as leis objetivas gerais, universais e necessárias dos fatos. Como estabelecer leis objetivas para o que essencialmente subjetivo, como o psiquismo humano? (CHAUÍ, 2002, p. 271).

Logo, a produção científica no campo da Historicidade considerada válida é aquela apresentada (e baseada) nos documentos, fatos e datas oficialmente reconhecidos e que, comprovadamente, encontram-se a disposição em Museus ou Instituições afins, sendo irrelevantes as percepções de mundo ligadas às épocas de sua ocorrência ou os fatos relatados a partir da memória do sujeito integrante ao objeto pesquisado (sendo, dessa forma, um dado colhido a partir da memória, uma fonte histórica duvidosa), ou seja, o método positivista, quantitativo, documental, põe-se como um grande obstáculo epistemológico à utilização da História Cultural como método, principalmente, no tocante à história oral, tendo se tudo aquilo que não está oficialmente demonstrado.

Já sobre o Estruturalismo como método epistemológico, o pensamento estruturalistasurge como marco epistemológico com oantropólogofrancêsClaude Lévi-Strauss, fundador da antropologia estruturalista, em meados da década de 1950 a partir da análise de fenômenos como a mitologia. O Estruturalismo propõeum estudo metódico inspirado nos modes linguísticos onde tem-se significados que numa determinada situação serão reproduzidos e servirão como sistemas de significação, objetivando a construção de formas deorganização. Nesse pensar:

Quanto às estruturas utilizadas por Lévi-Strauss, todos sabem que, além das estruturas fonológicas, e mesmo em geral saussurianas, nas quais se inspirou, partindo da lingüística, soube reencontrar nas diversas organizações do parentesco estruturas algébricas de redes e de grupos de transformações etc., que pôde formalizar com a ajuda de matemáticos, tais como A. Weil e G.-Th. Guilbaud. E essas estruturas não se aplicam somente ao parentesco: são reencontradas na passagem de uma classificação a outra, de um mito a outro, enfim, em todas as "práticas" e produtos cognitivos das civilizações estudadas. (PIAGET, 1979, p 86).

Claude Lévi-Strauss explica que uma estrutura social "(...) não se refere à realidade empírica, mas aos modelos construídos em conformidade com esta. Assim aparece a diferença entre duas noções, tão vizinhas que foram confundidas muitas vezes: a de estrutura social e a de relações sociais". (1980, p. 07).A Professora Lilia K. Moritz Schwarczdo Departamento de Antropologia - USP,acerca daHistória e da Etnologia escrita por Lévi-Strauss, escreve que"dicotomias ainda mais rígidas concretizaram-se, guardando para a história o reino da diacronia e do tempo; para a Antropologia o lugar da sincronia e da estrutura"(1999, s.p.). E que, "talvez seja por isso mesmo que o historiador Jacques Revel tenha afirmado que em seus primórdios o estruturalismo impunha-se quase como uma provocação ou ao menos realizava uma clara delimitação de territórios" (Idem).

Logo, o paradigma estruturalistatambémfoi enfrentado por Roger Chartierquando este tratou da oposiçãoàscategorizaçõessociais, àspráticas e representaçõessociais, àsoberania do simbólico e das molduras socialmente construídas, onde a história se constróia partir de um relato determinada por dado momento histórico. Portanto, a utilização da História Cultural como método epistemológico, da história oral e da memória como fontes metódicas, se contrapõem a ideia de criação e organização de estruturas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

É fato que a História Cultural ainda caminha para uma melhor definição enquanto método,mas, de toda forma, sua proposta agora pautada numa interação dos saberes a partir da ruptura com os paradigmas da tradição metodológica e documental do método das ciências naturais positivistas, e na defesa da interdisciplinaridade e diversidade dos vários campos do saber,propõe uma coexistência da forma impressa e das via das tecnologias digitais como uma possibilidade facilitadora da pesquisa, trazendo consigo um método de pesquisa baseado nas experiências humanas a partir da análise do sujeito que, sob a perspectiva da hermenêutica jurídica, pode avançar na humanização das produções científicas no campo jurídico que poderão focar-se não apenas no método documental e bibliográfico, mas na história de vida dos sujeitos, na memória daqueles que efetivamente vivenciaram fenômenos sociais, políticos ou econômicos e muito têm a contribuir para o campo da pesquisacientífica.

REFERÊNCIAS

BARROS, José D'Assunção.A Nova História Cultural - considerações sobre o seu universo conceitual e seus diálogos com outros campos históricos. Cadernos de História, Belo Horizonte, v.12, n. 16, 1º sem. 2011.

CHARTIER, Roger. A história cultural. Entre práticas e representações. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1990.

______. Leituras e leitores na França do Antigo Regime. Tradução ÁlvaroLorencini. São Paulo: UNESP, 2003.

CHARTIER, R.; CAVALLO, G. (Org.) História da leitura no mundo ocidental 1. São Paulo: Ática, 1998.

CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2002.

GIL, Antônio Carlos. Métodos e Técnicas de Pesquisa Social.São Paulo: Atlas, 1999.

LANGER, Johnni. A Nova História Cultural: Origens, Conceitos e Críticas. Disponível em: http://www.historiaehistoria.com.br/materia.cfm?tb=artigos&id=186. Acesso em 01 de Jul. 2015.

LÉVI-STRAUSS, C. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1980.

MEIHY, J. C. S. B. Manual de História Oral. São Paulo: Edições Loyola, 2002.

PESAVENTO, Sandra Jatahy. História Cultural. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.

PIAGET, Jean.O estruturalismo. Rio de Janeiro: Difel, 1979. pág. 86-96.

MAGALHÃES, Justino. Cinco Questõesa RogerChartier. Cadernos de História da Educação - v. 13, n. 2 - jul./dez. 2014.

SCHWARCZ. Lilia K. Moritz. História e Etnologia. Lévi-Strauss e os embates em região de fronteira.Rev. Antropol. vol.42 n.1-2. São Paulo, 1999.

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