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Doutrina

Direito penal perigoso - ou, afinal, perigoso é mesmo o louco?


Autor:
CAETANO, Haroldo

Mi vida va prohibida

Dice la autoridad.

(Manu Chao)

RESUMO: O homem, louco ou não, nunca deixará de ser homem e deve ser sempre respeitado em sua dignidade. Como tal, jamais poderia ter sido rotulado de perigoso. De sua parte, o que, aliás, constitui problema de maior relevo neste artigo, os manicômios judiciários estão em pleno funcionamento na maioria dos Estados brasileiros, assegurando a perpetuação do sofrimento de milhares de mulheres e homens por todo o país a pretexto de um conceito que jamais se sustentou cientificamente. A periculosidade é uma herança lombrosiana maldita, mas que ainda seduz.

Introdução

Na Escola Clássica, o poder do homem de tomar decisões segundo o próprio discernimento, o seu livre-arbítrio, fundamenta a aplicação do direito penal, sendo a liberdade individual de primordial relevância para o funcionamento de todo o sistema punitivo. O crime é um ente jurídico e a culpabilidade do indivíduo constitui o pressuposto essencial para a imposição da pena, que deve ser proporcional à gravidade do delito praticado. Assinala Santiago Mir Puig que "não era possível punir além da gravidade do delito cometido, nem sequer por considerações preventivas, porque a dignidade humana se opunha a que o indivíduo fosse utilizado como instrumento de consecução de fins sociais de prevenção a ele transcendentes" (2007, p. 60). É que por trás das formulações de Kant e Hegel, bases filosóficas do retribucionismo penal, encontra-se uma filosofia política liberal, que tem na proporcionalidade entre a pena e a conduta ilícita uma garantia em favor do indivíduo.

Entretanto, a ideia de livre-arbítrio, fundamental para a Escola Clássica, é negada radicalmente pelos positivistas. Para a Escola Positiva, de raiz determinista, o homem não governa suas próprias ações e não tem liberdade de agir, pois é condicionado por vários e complexos fatores, de tal sorte que "a escolha, diante da opção, aparentemente livre, é resultante daqueles fatores" (CERNICCHIARO, 1972, p. 94). Conforme explica Sérgio Carrara, "o princípio do biodeterminismo chocava-se frontalmente com o princípio do livre-arbítrio, que atribuía aos homens a faculdade de dirigir suas ações conforme sua vontade, liberta de quaisquer determinações extraconscientes" (1998, p. 110).

Para o positivismo criminológico, a infração penal é expressão sintomática de uma personalidade antissocial, anormal e perigosa. Reflexo de uma doença ou de uma anomalia, o crime não deve ter como resposta uma sanção penal de natureza retributiva. A pena ganha, pois, a companhia da medida de segurança, esta de caráter preventivo, capaz de alcançar os objetivos da correção, da educação, da inocuização e da cura, que irão proporcionar a readaptação do delinquente à vida normal e honesta da sociedade.

Se, por um lado, a culpabilidade é a premissa fundamental de aplicação da pena, será a periculosidade, por outro, o pressuposto para a imposição da medida de segurança.

Para os positivistas, o crime é sintoma de uma enfermidade psicossomática e merece não a retribuição de uma sanção de caráter punitivo. O criminoso não deve sofrer a repressão da pena, porém, diversamente, deve ser submetido a tratamento com vistas à prevenção de futuras infrações em face de sua periculosidade. Nessa perspectiva, as medidas de segurança são os meios aptos a alcançar os objetivos pretendidos.

Periculosidade: em Busca de um Conceito

Confusão e discrepância de critérios marcam a extrema dificuldade dos juristas para conceituar a periculosidade.

Sebastián Soler, em seu livro Exposición y Crítica de la Teoria del Estado Peligroso, evidencia as dificuldades conceituais enfrentadas nas mais variadas formulações propostas. Para Filippo Grispigni, periculosidade é "a relevante capacidade de uma pessoa para cometer um crime" ou "a probabilidade de vir a se tornar autora do crime". Segundo Jiménez de Asúa, a periculosidade é o reflexo externo de um Estado subjetivo, "la inmanenza criminale", que, por sua vez, expressa uma disposição orgânica tendente para o crime. Já para Alfredo Rocco, a periculosidade não passa de um dos efeitos psicológicos do delito. Finalmente, o próprio Soler a conceitua como sendo a "potência, a capacidade, a aptidão ou a idoneidade que um homem tem para converter-se em causa de ações danosas" (1929, p. 14-21).

Conceitos abertos como os que buscam explicar a periculosidade revelam a extrema fragilidade da própria teoria, como também se revelaram frágeis outros mitos fundantes do positivismo criminológico. Quando apontam a periculosidade como potência, capacidade ou aptidão para causar danos (Soler), probabilidade de delinquir (Grispigni), tendência para o crime (Asúa), ou, em sentido absolutamente diverso, como simples efeito psicológico do próprio crime (Rocco), os conceitos pouco ou quase nada dizem, pois levam à inafastável conclusão de que qualquer indivíduo carregaria consigo a periculosidade. Sob tais formulações conceituais, absolutamente precárias, todas as pessoas poderiam ser identificadas como perigosas, uma vez que todas as pessoas carregariam de forma latente os atributos característicos da periculosidade.

Contudo, foi Raffaele Garofalo quem antes, em 1878, deu os contornos conceituais primitivos da periculosidade. Para Garofalo, também citado por Soler, se a pena constitui um meio de prevenção, deve então adaptar-se não só à gravidade da infração ou ao dever violado, mas à temibilidade do agente, por ele definida como "a perversidade constante e ativa do delinquente e a quantidade de mal previsto que se deve temer por parte do mesmo delinquente" (1929, p. 16). Kátia Mecler, a propósito da definição de Garofalo, assinala ter sido a temibilidade "o conceito-chave, para fins penais, dos positivistas, sendo o antecessor da contemporânea teoria da periculosidade" (2010).

Foi sob tal perspectiva que Enrico Ferri propôs a defesa social como resposta para o crime. Para ele, o Estado tem o direito de defender-se dos indivíduos perigosos, sem qualquer diferenciação entre imputáveis e inimputáveis, pois a culpabilidade é substituída pela periculosidade. Conforme sustenta Ferri, "se cada delito, desde o mais leve ao mais cruel, é a expressão sintomática de uma personalidade antissocial, que é sempre mais ou menos anormal, mais ou menos perigosa, é inevitável a conclusão de que o ordenamento jurídico de defesa social repressiva não pode subordinar-se a uma pretensa normalidade ou intimibilidade ou dirigibilidade do delinquente" (apud CERNICCHIARO, 1972, p. 95).

Segundo os partidários da teoria da defesa social, diante do homem determinado à prática do crime, a sociedade deve estar determinada em defender-se. Nesse contexto, explica Soler que "a pena não tem nenhuma razão de ser como retribuição; é somente um meio de defesa" (1992, p. 383). Corolário desse entendimento, então, e diferentemente da culpabilidade (pressuposto de imposição da pena), que resulta de um juízo sobre o passado e tem no próprio crime a sua razão de ser, a periculosidade (pressuposto para a aplicação da medida de segurança) remete a um olhar rumo ao porvir, para a probabilidade de o indivíduo praticar um delito no futuro.

O Criminoso Nato

A concepção periculosista que aponta para a necessidade de um direito penal destinado à prevenção em muito se sustenta na ideia do criminoso nato, cuja aparição aconteceu na década de 1870, com a publicação do livro O Homem Delinquente, de autoria do médico psiquiatra italiano Cesare Lombroso. Aníbal Bruno pontua que Lombroso compreendia o criminoso como "uma variedade da espécie humana, um tipo definido pela presença constante de anomalias anatômicas e fisiopsicológicas" (2003, p. 62).

Sérgio Carrara explica que, para Lombroso, o criminoso possuía "uma série de estigmas que, na superfície de seu corpo, indicavam as disposições de sua alma"; porém, no caso do criminoso nato, "os estigmas tornavam-se imediata e grosseiramente indicadores de uma ferocidade original, e não propriamente de uma anomalia orgânica" (CARRARA, 1998, p. 105)(1)

Depois que Cesare Lombroso colocou o problema do criminoso nato, não tardou para que os criminosos fossem identificados com as pessoas com menos poder ou em situação de vulnerabilidade social, os quais desde sempre povoaram os presídios que, não por acaso, constituíram o campo das pesquisas do psiquiatra italiano. Por isso, pontua Bartira Macedo de Miranda Santos que "as teorias de Lombroso tiveram ampla repercussão político-criminal, provocaram transformações no saber penal com rupturas com o princípio da legalidade, servindo de instrumental teórico ideológico para a punição e o controle penal dos indesejáveis" (2015, p. 48).

Reflexos do Positivismo Criminológico

Tal teoria teve desdobramentos terríveis no campo social e político. As ideias de Lombroso desencadearam um verdadeiro escândalo ideológico e, ainda que as tenha temperado prudentemente no decorrer de sua vida, sempre estiveram circunscritas em um biologismo bastante reacionário, que culminou por servir de fundamento às teorias racistas do crime do nacional-socialismo, conforme explicam Zaffaroni e Pierangeli, que ainda destacam o triste fado ideológico "de um pensamento cuja mais difundida versão foi proporcionada por Lombroso, que pertencia a uma distinta família de judeus italianos" (p. 298). É que, por ironia do destino, as teorias lombrosianas culminaram por dar fundamento ao pensamento eugênico e higienista, servindo, assim, como argumento de legitimação da perseguição das raças inferiores, particularmente os judeus, durante a ascenção nazista na Europa.

As doutrinas positivistas da defesa social partem dessa concepção periculosista do criminoso e levam o determinismo para o direito penal, que se afasta do livre-arbítrio e abraça a ideia oposta, embora também metafísica, do homem, visto como um animal desprovido de liberdade e plenamente sujeito às leis da necessidade natural. Mais precisamente, como esclarece Ferrajoli, as doutrinas da defesa social representam a síntese de uma infeliz mistura das teorias de Lombroso, sobre o criminoso nato e sobre a natural desigualdade dos homens, com aquelas de Spencer acerca da sociedade enquanto organismo social e as ideias de Darwin a respeito da seleção e da luta pela existência, que, "se aplicadas a tal organismo, legitimam-no a defender-se das agressões externas e internas por meio de práticas socialmente profiláticas" (FERRAJOLI, 2006, p. 249).

A ideologia brutal do positivismo criminológico difundiu-se, tomando conta da Europa, e foi exportada para a América Latina. No nosso continente,

"foi a teoria dos ideólogos do 'bom ditador', como o 'grupo dos cientistas' da ditadura de Porfirio Diaz, no México, dos setores racistas brasileiros e da 'elite' argentina. Foi um pensamento que, em nosso continente, serviu para justificar o desprezo pelo índio, o negro, o mestiço e o mulato, que são os habitantes 'naturais' de nossos cárceres." (ZAFFARONI; PIERANGELI, 1997, p. 297)

A pena destina-se, na concepção positivista, a quem represente perigo para a sociedade, devendo inclusive sofrer mudança significativa e ser substituída pelas pretensamente assépticas medidas de segurança. A periculosidade, por seu fundamento racista, será identificada dentre os homens classificados como de pior qualidade, os degenerados, os biologicamente deficientes, que deveriam ser controlados pelos que exercem o poder, pois se convertem em uma "classe social perigosa". Já os grupos de poder são praticamente invulneráveis a tais medidas de coerção, pois sua "superioridade genética" ou "biológica" os preservam e somente por acidente algum de seus integrantes ficaria vulnerado (ZAFFARONI; PIERANGELI, 1997, p. 297).

O positivismo criminológico frutificou com incrível intensidade. Cesare Lombroso, Enrico Ferri e Raffaele Garofalo fizeram muitas cabeças, de forma que suas ideias ainda continuam vivas na psiquiatria(2) e no nosso sistema punitivo(3). Paulo Jacobina faz o alerta de que o criminoso nato "é um fantasma que assombra não só as nossas faculdades de direito, mas também as conversas de botequim, as páginas policiais e os repórteres sensacionalistas, sem contar os políticos de extrema direita" (2008, p. 79-80).

O delito é o sintoma da personalidade antissocial do delinquente, o que autoriza a defesa social por meios que persigam a prevenção especial dos delitos, para o que penas e medidas de segurança assumem a dupla função de curar o condenado, visto como doente, e/ou segregá-lo e neutralizá-lo em decorrência da sua periculosidade. Explica Luigi Ferrajoli que "a ideia central dessa tendência é a de que o delinquente é um ser antropologicamente inferior, mais ou menos pervertido ou degenerado, e que, portanto, o problema da pena equivale àquele das defesas socialmente mais adequadas ao perigo que ele representa". Nesta perspectiva, prossegue Ferrajoli que "as penas assumem o caráter de medidas tecnicamente apropriadas às diversas exigências terapêuticas da defesa social, vale dizer, higiênico-preventivas, terapêutico-repressivas, cirúrgico-eliminatórias, dependendo do tipo de delinquente - ocasionais, passionais, habituais, loucos ou natos - e dos fatores sociais, psicológicos e antropológicos do crime" (2006, p. 248-249). Os princípios orientadores das doutrinas positivistas da defesa social são, assim, a segregação por tempo indeterminado, a adaptação dos instrumentos defensivos à respectiva categoria antropológica do delinquente e a revisão periódica da sentença.

Não se fala em imputabilidade ou em inimputabilidade, porém, está presente a responsabilidade moral do delinquente, de vez que, na acepção de Ferri, o sujeito ativo do delito é "sempre penalmente responsável, porque o ato é seu, isto é, expressão de sua personalidade, quaisquer que sejam as condições físico-psíquicas em que haja deliberado e agido" (apud CERNICCHIARO, 1972, p. 95). Se a culpabilidade não é pressuposto da sanção penal, a periculosidade do criminoso ou, aqui mais precisamente, a periculosidade do louco toma esse lugar.

O Louco É Perigoso Apenas por Ser Louco?

Como já foi visto anteriormente, no sistema de duplo binário, penas e medidas de segurança coexistem e são simultaneamente aplicáveis ao indivíduo imputável como respostas legais para a mesma infração penal. No Brasil, desde a reforma penal de 1984, quando foi adotado o sistema vicariante na parte geral do Código Penal, somente os indivíduos inimputáveis ou semi-imputáveis (CP, art. 26), assim declarados por força de doença ou perturbação da saúde mental, passaram a ter a periculosidade presumida. É para essas duas categorias que hoje se reservam no direito penal brasileiro as medidas de segurança (CP, art. 97). A periculosidade é, nos termos da norma penal de agora, atributo exclusivo do louco.

Mas por que motivo o louco deve ser considerado perigoso? O louco é perigoso apenas por ser louco? A construção jurídica do conceito de periculosidade, embora de frágil sustentação, é bastante refinada e exige, para sua configuração, que, além de louco, o indivíduo tenha cometido uma infração penal. O indivíduo não é perigoso por ser louco. Só a prática do crime pode demonstrar a sua periculosidade, esta condicionada àquela. O crime, por si só, não determina a periculosidade do indivíduo, como acontecia nas revogadas disposições do duplo binário; da mesma forma a loucura que, por si só, não determina a periculosidade do indivíduo. Para que seja reconhecida, a periculosidade deve conjugar esses dois fatores: a loucura e o crime.

A verificação da periculosidade pelo juiz do processo levará em consideração esses dois elementos a ela essenciais e, uma vez demonstrada no caso concreto a prática do crime pelo agente inimputável ou semi-imputável, estará autorizada pelo Código Penal a imposição da medida de segurança.

Afinal, o Louco É Perigoso?

Conforme demonstrado, a periculosidade é de conteúdo jurídico, pois resulta da junção entre dois fatores que tentam lhe dar alguma sustentação conceitual: a loucura e a prática do crime. São muito frágeis os pilares dessa ideia, uma vez que a periculosidade não resulta da loucura em si. A periculosidade resulta de uma abstração construída pela norma, de maneira que será considerado perigoso somente o louco que vier a praticar uma infração penal.

Originalmente, convém lembrar, o louco não era "o" indivíduo perigoso de que falava a Escola Positiva. Como já demonstrado, para o positivismo criminológico a periculosidade era inata ao criminoso, visto como um indivíduo que nascia fatalmente destinado à prática da infração penal, independentemente de eventual transtorno psíquico. Louco ou não, perigoso era o criminoso. Só mais tarde a periculosidade foi restringida ao agente inimputável por força de doença mental ou perturbação da saúde mental, o que demonstra o quão flexível era - e ainda é - o conceito de periculosidade, cujo alcance, conteúdo e significado podem ser modificados ao alvedrio do legislador penal.

Como se percebe, a periculosidade não se fundamenta em um conceito de natureza médica, como poderia parecer à primeira vista. Seu conteúdo é puramente normativo. É certo que Lombroso era um médico psiquiatra e que foi responsável pelos estudos que levaram à ideia do criminoso nato, o que mais tarde serviu de referência para a construção do conceito de periculosidade no campo do direito penal. Ocorre que, conforme depois se denunciou, suas conclusões careciam de fundamento científico (não há como indicar uma base biológica para o crime), embora tenham ganhado terreno com extrema facilidade em função, principalmente, de uma sucessão de fatores presentes no século XIX, assim identificados por Rosa Del Olmo:

"As crises que sacudiam o capitalismo, a atividade dos sindicatos, os temores de guerra, o aumento da pobreza e outros problemas sociais que se agravavam em toda a Europa - a causa das mudanças do modo de produção capitalista - exigiam uma ciência que fosse efetiva para o controle da sociedade e para manter a 'ordem'. Por exemplo, em 1834 estima-se que havia, apenas na França, 10 mil doentes mentais, 2 milhões de indigentes, 300 mil mendigos, uns 130 mil menores abandonados, etc." (apud SANTOS, 2015, p. 33-34)

A periculosidade surge como um estratagema, um disfarce, um embuste para o controle de populações vulneráveis. Antes, diante das várias hipóteses legais de presunção da periculosidade, esta poderia alcançar qualquer indivíduo condenado pela prática de um crime, cuja rotulação de perigoso era definida na própria sentença. Agora, em face da flexível conceituação pela norma penal, perigoso seria somente o louco.

Absolutamente desprovida de fundamento na medicina, a periculosidade tem nos frágeis argumentos do médico psiquiatra Cesare Lombroso, todavia, apenas uma explicação artificial, embora tenha sido tão sedutora para tantos. A difícil conceituação da periculosidade como um atributo humano, cuja configuração pressupõe a presença de fatores estranhos ao próprio homem, resultante que é de uma fórmula legal, acaba por expressar, pelas suas próprias deficiências conceituais, o sofisma que ela representa. Não há como atribuir-se a um ser humano a condição de perigoso, exceto se dele extraído radicalmente o livre-arbítrio, como faz a Escola Positiva. Para ser tido como perigoso, o homem deve deixar de ser homem. Para ser rotulado de perigoso, o homem deve ser reduzido a um animal aprisionado às suas necessidades naturais.

É importante lembrar, com Fernanda Otoni de Barros-Brisset, que nem sempre o termo periculosidade se prestou a designar a qualidade de uma pessoa, tampouco constava dos conceitos empregados na linguagem jurídica. Não se qualificava alguém como intrinsecamente perigoso. Foi justamente no período compreendido entre o final do século XIX e o início do século XX que o termo ganhou o sentido com que hoje é empregado. Antes, "podia-se usar o adjetivo 'perigoso' como uma qualidade igual a qualquer outra, um modo de predicar situações e coisas; muito dificilmente encontraremos, nos registros anteriores ao século XIX, essa palavra usada como qualidade para predicação de pessoas" (2010, p. 20). Até então, certas situações poderiam ser rotuladas de perigosas, mas tal qualidade não se projetava para vincular a pessoa em si, com a conotação patológica que passou a carregar na linguagem jurídica.

Não obstante a tentativa da antropologia criminal em apontar fundamentos biológicos para o crime, tal concepção só tem lugar no positivismo criminológico. Somente com base nas teorias lombrosianas é que se faz possível vincular loucura e perigo.

Direito Penal Perigoso

A experiência de quase um século, em que o direito penal tem se orientado pelo mito da periculosidade do criminoso, louco ou não, mostrou-se catastrófica e permitiu que o autoritarismo penal tomasse o lugar da legalidade no sistema punitivo. No Brasil, desde o Código Penal de 1940, com suas medidas de segurança aplicadas de forma generalizada para indivíduos imputáveis ou não, o direito penal perigoso causou estragos que ainda hoje se fazem fortemente presentes, para muito além das medidas de segurança. São corriqueiras expressões como bandido perigoso ou preso de alta periculosidade tanto no sistema de justiça criminal quanto fora dele, com destaque para os meios de comunicação social, o que acaba por naturalizar no imaginário da população a ideia de que a periculosidade é, de fato, um atributo humano.

Além de dar o embasamento essencial para as medidas de segurança, a periculosidade está também embutida em outros dispositivos do Código Penal, do Código de Processo Penal e da Lei de Execução Penal, em institutos de nítido fundamento nas teorias lombrosianas. É o que se percebe, por exemplo, no art. 326 do CPP, em que a autoridade policial, para determinar o valor da fiança em favor do preso, deverá verificar "as circunstâncias indicativas de sua periculosidade"; ou no art. 8º da LEP, que prevê o exame criminológico, procedimento também previsto para a concessão do livramento condicional, nos termos do art. 83, parágrafo único, do Código Penal, que exige, para o condenado por crime doloso, cometido com violência ou grave ameaça à pessoa, a constatação de "condições pessoais que façam presumir que o liberado não voltará a delinquir". O mesmo Código Penal, em seu art. 59, prevê ainda a averiguação, pelo juiz, da personalidade do agente no ato de fixação da pena. Não é difícil perceber que a teoria da periculosidade deixou marcas profundas e dificilmente será algum dia extirpada por completo do sistema repressivo penal.

Conclusão

O homem, louco ou não, nunca deixará de ser homem e deve ser sempre respeitado em sua dignidade. Como tal, jamais poderia ter sido rotulado de perigoso. Perigosa, como demonstrou o nazifascismo europeu da primeira metade do século XX, é a própria doutrina da periculosidade. Perigoso tornou-se o direito penal ao acolher as ideias de Cesare Lombroso, secundadas por Enrico Ferri e Rafael Garofalo, dentre tantos outros.

De sua parte, o que, aliás, constitui problema de maior relevo neste artigo, os manicômios judiciários estão em pleno funcionamento na maioria dos Estados brasileiros, assegurando a perpetuação do sofrimento de milhares de mulheres e homens por todo o país a pretexto de um conceito que jamais se sustentou cientificamente.

A periculosidade é uma herança lombrosiana maldita, mas que ainda seduz. É injustificável, exceto para quem não se incomoda em face do autoritarismo punitivo, a acomodação de grande parte dos pensadores do direito penal diante de uma bizarrice que vem do século XIX, mas que passa distante de qualquer problematização mesmo depois da Constituição de 1988, o que expõe um pouco mais a omissão acadêmica, mesmo em face da clareza solar dos avançados dispositivos da Lei Antimanicomial, esta que rompe definitivamente com o mito da periculosidade para estabelecer uma nova ordem no plano da atenção em saúde mental, pautada na liberdade e no respeito à dignidade do louco.

Em síntese, respondendo à indagação apresentada, não! Definitivamente, o louco não é perigoso!

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PALAVRAS-CHAVE: Direito Penal Perigoso. Periculosidade. Criminoso Nato. Positivismo Criminológico.

SUMÁRIO: Introdução. Periculosidade: em Busca de um Conceito. O Criminoso Nato. Reflexos do Positivismo Criminológico. O Louco É Perigoso Apenas por Ser Louco?. Afinal, o Louco É Perigoso?. Direito Penal Perigoso. Conclusão. Referências Bibliográficas.

TITLE: Dangerous criminal law - or, after all, are the mentally ill really dangerous?

ABSTRACT: Man, mad or not, will never cease to be a man and must always be respected in his dignity. As such, it should never be labeled dangerous. A major problem addressed in this article is the matter of the judicial asylums which are in full operation in most Brazilian states, ensuring the perpetuation of the suffering of thousands of women and men throughout the country under the pretext of a concept which has never been scientifically supported. Dangerousness is a cursed, but still seductive, Lombrosian heritage.

KEYWORDS: Dangerous Criminal Law. Risk. Born Criminal. Criminological Positivism.

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Referências Bibliográficas

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BRUNO, Aníbal. Direito penal: parte geral. Rio de Janeiro: Forense, 2003. t. 1.

CARRARA, Sérgio. Crime e loucura: o aparecimento do manicômio judiciário na passagem do século. Rio de Janeiro: EdUERJ; São Paulo: EdUSP, 1998.

CERNICCHIARO, Luiz Vicente. Estrutura do direito penal. São Paulo: Sugestões Literárias, 1972.

FERRAJOLI, Luigi. Direito e razão: teoria do garantismo penal. São Paulo: RT, 2006.

JACOBINA, Paulo. Direito penal da loucura. Brasília: ESMPU, 2008.

MECLER, Kátia. Periculosidade: evolução e aplicação do conceito. Revista Brasileira de Crescimento e Desenvolvimento Humano, v. 20, n. 1, p. 70-82, 2010.

PALOMBA, Guido Arturo. Tratado de psiquiatria forense civil e penal. São Paulo: Atheneu, 2003.

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SOLER, Sebastián. Derecho penal argentino. Buenos Aires: Tipográfica Editora Argentina, 1992.

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ZAFFARONI, Eugênio Raúl; PIERANGELI, José Henrique. Manual de direito penal brasileiro: parte geral. São Paulo: RT, 1997.

Notas:

1 "Em termos anatômicos, a ausência de pelos, o comprimento exagerado dos braços, a 'obtusidade' das feições, as orelhas munidas do tubérculo de Darwin, os maxilares superdesenvolvidos, a fronte 'fugidia', a saliência dos zigomas, o exagerado escavamento da abóbada palatina e das fossas oculares e ainda outras peculiaridades do crânio desenhavam sobre o corpo do criminoso o perfil anatômico dos símios. Em termos fisiológicos, a analgesia (insensibilidade à dor), a desvulnerabilidade (capacidade de rápida recuperação dos ferimentos), o mancinismo ou o ambidestrismo eram tidos tanto como características dos selvagens quanto dos criminosos natos. Psicologicamente, o gosto pela tatuagem, pela gíria e onomatopeias, a imprevidência, a prodigalidade, a vaidade, a imprudência, a impulsividade, a insensibilidade moral, o caráter vingativo, o amor pela orgia, a preguiça, a precocidade e o prazer no delito, a ausência de remorsos completavam a figura do atávico. Havia ainda características fisionômicas: o olhar, frio e fixo nos assassinos; errante, oblíquo e inquieto nos ladrões. Além disso tudo, os criminosos natos seriam geralmente muito sensíveis aos metais, à eletricidade, aos meteoros e às mudanças atmosféricas (principalmente às tempestades), sendo em sua maioria 'pederastas' ou pouco afeitos às mulheres." (CARRARA, 1998, p. 105)

2 Como, por exemplo, Guido Arturo Palomba, para quem "os alienados mentais criminosos são, salvo raras exceções (quando não há nexo causal entre psicopatologia e crime), biocriminosos puros (o biológico determina a psicopatologia que leva ao crime)" (2003, p. 188).

3 No direito, embora não sejam poucos os autores que problematizam o assunto, especialmente na criminologia crítica (Ferrajoli, Zaffaroni, Salo de Carvalho, Paulo Jacobina e Sérgio Salomão Shecaira), prevalece na academia e nas instituições do sistema de justiça criminal o entendimento segundo o qual a periculosidade do louco é pressuposto ainda apto a justificar a imposição de medidas de segurança. Tal quadro se justifica pela relativamente recente Lei Antimanicomial e pela não assimilada elevação da culpabilidade à condição de princípio constitucional (especialmente no art. 5º, incisos XLV e LVII). São incontáveis os autores que dão sustentação à teoria da periculosidade, com forte penetração nas faculdades de direito e que, por isso mesmo, se faz hegemônica. A título de ilustração, podemos mencionar os nomes de Damásio Evangelista de Jesus, René Ariel Dotti, André Estefam, Julio Fabbrini Mirabete, Rogério Greco, Guilherme Nucci, Flávio Augusto Monteiro de Barros, dentre muitos.

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